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Resenha - Espada de Vidro (A Rainha Vermelha, Vol. 2)


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Autora: Victoria Aveyard

Editora: Seguinte

Páginas: 496

Gênero: Fantasia / Distopia

Sinopse: "O sangue de Mare Barrow é vermelho, da mesma cor da população comum, mas sua habilidade de controlar a eletricidade a torna tão poderosa quanto os membros da elite de sangue prateado. Depois que essa revelação foi feita em rede nacional, Mare se transformou numa arma perigosa que a corte real quer esconder e controlar. Quando finalmente consegue escapar do palácio e do príncipe Maven, Mare descobre algo surpreendente: ela não era a única vermelha com poderes. Agora, enquanto foge do vingativo Maven, a garota elétrica tenta encontrar e recrutar outros sanguenovos como ela, para formar um exército contra a nobreza opressora. Essa é uma jornada perigosa, e Mare precisará tomar cuidado para não se tornar exatamente o tipo de monstro que ela está tentando deter."


                                                                        Por Paulo Vinicius F. dos Santos.
                                                     Publicado originalmente em: Ficções Humanas


No segundo volume da série da Rainha Vermelha, Mare Barrow precisa correr atrás dos sanguenovos para reforçar os seus quadros e realizar sua vingança contra Maven. Mas, isso pode ser um caminho muito mais tortuoso do que parece

Confiar verdadeiramente em alguém pode ser um ato difícil. Sempre existem problemas que fazem com que as pontes da confiança caiam. E então fica difícil recuperá-la. Mas, não é saudável também desconfiar de tudo e todos. Isso acaba deixando um indivíduo muito solitário. Será com esse conjunto de sentimentos que a protagonista da série precisará lidar neste segundo volume ao mesmo tempo em que precisa amadurecer e se tornar a líder de um movimento.

Esse é um livro com uma atmosfera bem mais sombria do que o primeiro. Achei ele até mais pesado em alguns momentos. Enquanto que no primeiro havia um fio de esperança no fim do caminho, aqui ele é inexistente. A cada momento, Mare é assolada pela desesperança. A presença de Maven se torna uma maldição para ela. Algumas cenas são pesadas como a do bebê no vilarejo ou a fuga da prisão de Corron. A autora não poupa ninguém e quando chegarmos ao final do segundo volume vamos encontrar uma personagem muito diferente da menina de Palafitas. Chega a ser cruel a trajetória que ela realiza.

Mais uma vez a narração é em primeira pessoa, na voz de Mare. Digo que isso prejudicou um pouco este segundo volume. Isso porque a autora acaba repetindo uma série de motes e sentimentos que a personagem viveu no primeiro volume. O mantra de Todos traem todos se torna chato após a vigésima vez que a personagem repete isso. Gostei da evolução que a personagem sofre no final em virtude de todos os obstáculos que ela precisa ultrapassar ao longo deste volume. Mas, em alguns momentos, é um pouco incômodo. Alguns capítulos podiam ter sido suprimidos. Curiosamente, achei que a metade final foi um pouco corrida enquanto que a primeira metade foi arrastada. Faltou equilíbrio na pena da autora. Entendo que alguns trechos eram necessários para estabelecer a construção/evolução da personagem. Mas, é o trecho final que importa mais. E eu senti que alguns momentos poderiam ter sido mais explorados.

Tivemos um bom desenvolvimento dos demais personagens. Farley, Kilorn e Cal tiveram muito espaço neste volume. Tendo as motivações estabelecidas era a hora de mexer um pouco na maneira como eles enxergam o mundo. Farley precisa lidar com o fato de que diante de Mare, ela acaba se tornando uma mera coadjuvante. A liderança da rainha vermelha vai se tornando cada vez maior, mesmo que esta não deseje esta liderança. Já Kilorn precisa deixar de lado o seu lado pescador para se transforma em um revolucionário digno de confiança. E, o pior de tudo, lidar com o sentimento ultraprotetor de Mare. Isso certamente vai levar a algum momento de conflito neste volume. Já Cal precisa superar a perda de seu pai e compreender onde ele se situa nesse momento. Onde está seu coração? Por que permanecer com a Guarda Vermelha? Qual é o seu objetivo? Esta e outras perguntas são respondidas ao longo da narrativa. Por isso eu gostei muito da maneira como Aveyard avançou o enredo ao mesmo tempo em que deu espaço aos outros personagens. A história não ficou centrada apenas em Mare. Por isso que eu gostaria que a autora tivesse deixado de lado a narrativa em primeira pessoa ou que pelo menos trabalhasse com Pontos de Vista.

Outro ponto fraco deste volume é a construção de mundo. Entendo que a autora deseje nos dar a impressão de desconhecimento já que a própria protagonista não conhece o resto do mundo. Seríamos ignorantes, sendo apresentados pouco a pouco ao mundo. Mas, neste segundo volume, acho que uma construção maior de mundo ficou devendo. Aqui era necessário. Para que pudéssemos compreender melhor o conflito entre Lakeland e Norta e onde se situam as demais nações. Fora que a autora precisa escolher como ela vai situar a tecnologia do mundo. É legal vermos os nossos personagens escapando em um caça super veloz, mas ela precisa estabelecer o que tem e o que não tem no mundo. Precisa colocar limites. Se tornou o samba do crioulo doido e a valsa do branco maluco. Caça, instrumento sônico, detectores... eu fiquei perdido. Em alguns momentos parece que esses instrumentos são criados do nada apenas para criar algum conflito na história. Ajeitar isso é bem simples: basta mencionar a existência deles em uma conversa informal. Mas, não, eles parecem jogados ao léu.

A velocidade de leitura também é alta. Não significa que o livro é excepcional, mas apenas que a autora sabe escolher bem as palavras e a trama não é difícil de ser compreendida. Os personagens já estão estabelecidos e tudo o que Aveyard precisa se preocupar é em conduzir a narrativa até o próximo momento. A partir do capítulo 20, a história ganha uma velocidade frenética. O leitor não consegue mais parar. Tudo acontece em uma sucessão tão rápida que só vamos conseguir pegar fôlego mais de 10 capítulos depois. A ação é espetacular e a fuga da prisão é fenomenal. A autora soube explorar de formas muito criativas os poderes dos personagens. Ela deixa um gancho muito bom para o próximo volume. Só acho meio enfadonho deixar a história terminar no meio de um momento-chave. Parece uma forma covarde de obrigar o leitor a comprar o próximo volume. É uma mentalidade a la The Walking Dead e seus finais de temporada. Criar o hype. Não sei se eu concordo com essa moda. Existem outras maneiras de terminar um livro.

A Espada de Vidro é uma continuação sensacional de uma série que já era muito boa. A autora desenvolve melhor os personagens de apoio e conduz a protagonista por uma verdadeira via crucis. Com uma narrativa mais sombria do que a anterior, alguns momentos são realmente pesados. Não concordei com a forma como a autora encerra este segundo volume, mas no geral a narrativa flui muito bem principalmente após a segunda metade.

Resenha - Coroa Cruel (A Rainha Vermelha, Vol. 0.5)


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Autora: Victoria Aveyard

Editora: Seguinte

Páginas: 232

Gênero: Fantasia/Distopia


                                            Por Paulo Vinicius F. dos Santos
                    Originalmente publicado em Ficções Humanas



Em duas noveletas, Aveyard nos apresenta o que acontece antes do primeiro livro a partir do ponto de vista de duas personagens: Coriane Jacos, mãe de Cal e Diana Farley, uma comandante da Guarda Vermelha.

Coroa Cruel é uma compilação das duas noveletas lançadas pela autora antes do lançamento do volume 2 da série, Espada de Vidro. Canção da Rainha trata da vida de Coriane Jacos, uma jovem de uma decadente casa prateada que precisa tentar se destacar no jogo da corte. Quando Coriane conhece Tiberias, parece que tudo irá mudar. Mas, talvez o coração de Coriane não esteja preparado para lidar com as intrigas da corte de Archeon. Já Cicatrizes do Aço mostra a ascensão de Diana Farley, o rosto mais conhecido do grupo terrorista conhecido como a Guarda Vermelha. Vemos as motivações que levam Farley a ser tão extrema em seus atos e como ela conheceu a família Barrow, Shade e Mare.

Ambos os contos são bem interessantes. Servem para expandir o mundo criado pela autora no primeiro livro. Ele vale mais para aqueles que realmente ficaram interessados no desenvolvimento da história, não sendo tão fundamentais para o futuro da série. Tanto um como o outro complementam informações e dão extras para o leitor. Eu gostei porque a autora se soltou um pouco mais nestas duas histórias e chegou até a fazer experiências narrativas.

No primeiro conto o tema fundamental é a solidão. Tanto Coriane quanto Tiberias são pessoas solitárias. Não são capazes de conviver dentro da exigente sociedade de corte. Coriane deseja apenas montar e desmontar coisas. E ela vê sua vida sendo planejada para ela. Não é capaz de saber o que ela fará de si mesma. Tudo tem um propósito: o andar, o vestir, o pensar, o se portar. E isso é quase como se fosse uma prisão. Se em um primeiro momento a protagonista é ignorada completamente por todos, depois ela se torna o alvo dos olhares e julgamentos de todos. Já Tiberias é um ser etéreo que vaga pela corte. Ele não sabe o que quer para si e encontra em Coriane alguém parecido com ele. Tem uma frase da história que é exemplar nisso que diz que já que ambos são solitários, por que não serem solitários juntos?

Os jogos de poder entre as casas prateadas são bem apresentados aqui. O sufocante mundo de Archeon onde qualquer suspiro pode ser mal interpretado e onde todos possuem algum poder. Coriane chega na corte de Archeon sem dominar as suas habilidades como cantora. E provavelmente essa inexperiência ocasionou o fim dela. Precisar lidar com uma manipuladora como Elara foi demais para a jovem personagem. Basicamente eu gostei bastante desse conto e serviu para aprofundar mais os jogos de poder que tanto foram interessantes no primeiro livro. Os personagens sao bem apresentados e alguns são familiares para quem leu A Rainha Vermelha.

Já o segundo conto nos apresenta um pouco mais sobre a Guarda Vermelha. O movimento é bem mais organizado do que parece no primeiro livro. Lá nós imaginávamos um movimento pequeno formado por um grupo de pessoas de Norta insatisfeitos com o andar das coisas. Mas, percebemos através deste conto que o buraco é muito mais embaixo. O nível de organização da Guarda é bem maior, com hierarquias, códigos, transportes. A autora passou bem esse ar de organização complexa demonstrando fraqueza para enganar os outros. Realmente esse segundo conto se passa bem mais próximo de A Rainha Vermelha do que o primeiro conto. Alguns acontecimentos são melhor esclarecidos e vemos como a surpresa do final do primeiro livro realmente acontece. E ela acontece bem antes do que deixa transparecer no final.

A protagonista é Diana Farley, a face pública do movimento. No primeiro livro ela parecia mais uma criatura sombria que se esconde e suas motivações não são lá muito claras. Aqui começamos a entender mais quem é a personagem. E a autora joga algumas pistas de onde a Guarda Vermelha teria surgido. A protagonista dessa história agora me parece muito mais interessante em sua obscuridade. Não seria nada mal um spin-off com as aventuras dela. O tema principal desse conto é a lealdade e até onde uma pessoa pode conduzir suas ações em prol de seu objetivo. Em várias ocasiões Farley desobedece ordens superiores por discordar das mesmas. Na visão dela, os membros da Guarda não podem perder a visão de pelo que eles estão lutando. Essa pureza de objetivo é que torna Farley tão complexa e perigosa ao mesmo tempo. Ela não mede esforços para alcançar o que deseja.

Neste segundo conto, a autora emprega um estilo narrativo diferente: ela intercala relatórios de progresso das ações da Guarda com a narrativa em primeira pessoa. Eu gostei da maneira como ela fez isso, mas admito que não gostaria de ver esse estilo no livro principal. Vale apenas para este conto aqui. A narrativa é em primeira pessoa, mas achei o estilo mais veloz e dinâmico em relação à Rainha Vermelha. Não existem tantas descrições por aqui e a autora deixa transparecer mais os sentimentos da protagonista do que usar linhas em longos pormenores. Acho que ela poderia empregar esse estilo no segundo livro que o tornaria até mais interessante.

Recomendo A Coroa Cruel para aqueles que gostaram do universo de Victoria Aveyard. Aqui conhecemos um pouco mais do mundo onde se passa a história de Mare. As motivações de outros personagens se tornam mais claras. Não é um livro essencial para a compreensão do todo, mas fornece boas horas de diversão. A autora faz algumas experiências narrativas diferentes o que torna a leitura bem distinta da série principal. Achei o primeiro conto mais interessante do que o segundo, mas isso é normal em coletânea de contos. Não tem para onde correr nesse sentido.

Resenha - A Rainha Vermelha (A Rainha Vermelha,Vol. 1)


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Autora: Victoria Aveyard

Editora: Seguinte

Páginas: 424

Gênero: Fantasia/Distopia


Por Paulo Vinicius F. dos Santos
               Originalmente publicado em: Ficções Humanas




Com uma escrita ágil e dinâmica, Victoria Aveyard nos apresenta um mundo de mentiras e traições onde um enorme grupo de pessoas é explorado por uma pequena elite com poderes especiais. Mas, logo esse jogo começa a virar.

Falem o que for de livros do gênero Young Adult, uma coisa que não podemos negar é que são livros extremamente rápidos de serem lidos. Uma linguagem fácil e um mundo que o leitor se acostuma rapidamente são muito atrativos. Claro que isso não significa que o livro é excepcional por causa disso, mas ajuda a trazer novos leitores. É imegável isso. A Rainha Vermelha pega esses elementos e nos apresenta uma história interessante em um mundo que deixa muito ainda a ser explorado.

Vivendo em Palafitas, a jovem Mare Barrow é uma pequena ladra que busca sustentar sua família. Mas, seu pai e sua mãe não aprovam as atitudes da filha. Eles são vermelhos, são pessoas comuns dominadas por um grupo formado por seres com poderes especiais chamados de prateados. Para os vermelhos, os prateados são como deuses na terra. Suas habilidades únicas os mantém como os tiranos absolutos desse mundo desigual. Norta, o lugar onde Mare mora está em guerra com Lakeland, o reino vizinho. E os vermelhos são a infantaria dispensável nesta guerra que se arrasta por várias décadas. Para repor o contingente que morre a cada batalha, todos os jovens vermelhos (homens ou mulheres) a partir dos 16 anos são obrigados a entrar para o exército. Mare já perdeu três irmãos para esta terrível guerra e ela tem poucas notícias deles vindo do campo de batalha. Gisa, sua irmã mais nova, é a esperança da família, pois ela sabe costurar lindos tecidos. Quando ela crescer, certamente se tornará uma costureira para os prateados. Mas, Mare será a próxima a ser convocada pelo exército. Apenas um ano a separa da convocação. Seu amigo Killorn a ajuda em suas aventuras pela cidade, auxiliando-a a roubar para que possam sobreviver mais um dia. Killorn é o aprendiz de um marinheiro e conseguirá sair da convocação. Porém, quando uma série de eventos improváveis acontecem na vida de Mare, ela se vê obrigada a invadir um palacete onde se encontram inúmeros prateados. E essa aventura a mudará para sempre. Porque dias depois dessa invasão, Mare será contratada como uma empregada dos prateados pelo príncipe do reino. Se não bastasse isso, Mare descobrirá que tem poderes também. Mas, algo não está certo: ela é vermelha e vermelhos não tem poderes. Descoberta pela corte, ela agora precisará integrar a família real, indo contra todas suas convicções. Por que Mare tem poderes? E mais importante do que isso: será ela capaz de sobreviver ao universo de intrigas e traições que parecem fazer parte da vida dos prateados?

Esse é um livro para quem gosta de intrigas e traições. Boa parte da ação se passa na corte dos prateados de Norta. Através de Mare vamos conhecendo as intrincadas relações de poder entre a corte e as Grandes Casas. A cada passo, a protagonista precisa tomar cuidado com as suas ações já que elas podem custar a sua vida. O fato de todos terem poderes bem distintos a coloca contra a parede. A narrativa é sufocante nesse sentido. Não existe nenhum momento de alívio. A tensão paira no ar o tempo todo. É como Julian diz em um momento: "Todos traem todos". Aqueles que parecem seus aliados hoje, podem ser seus inimigos mortais no dia seguinte. A autora foi muito bem sucedida em nos dar essa situação de constante insegurança. Só por esse motivo, o livro já se destaca de tantas outras narrativas YA semelhantes.

A narrativa é rápida e dinâmica. Rapidamente o leitor se acostuma com o universo literário proposto pela autora. Em pouco mais de cinquenta páginas já sabemos os termos, os medos, as consequências, tudo. Nao são todos os autores capazes de fazer isso. E não é porque o mundo de A Rainha Vermelha seja simples. Nada disso. Ela deixa vários mistérios no ar, vários lugares a serem explorados. Eu acho muito interessante quando um autor consegue sempre deixar o leitor curioso a respeito do seu universo. E ela cria isso. Só acho que algumas informações que ela passa são muito confusas e desencontradas em certos momentos. Talvez seja para confundir o leitor, mas eu não curti muito.

A ideia de colocar vermelhos contra prateados é interessante. É um clichê que a autora pegou e deu um uso que entregou bem à história. O cerne da questão é essa: seres poderosos dominando os mais fracos. E esses seres poderosos estão a tanto tempo no poder que não sabem mais do que os inferiores são capazes. Eu só achei que a história poderia ter sido épica sem a necessidade de colocar toda uma outra raça de seres poderosos. Poderia ser a luta daqueles sem poder contra aqueles com poder. Mare poderia ser apenas a única diferente. Isso daria algo épico porque seria a revolta das massas desprivilegiadas contra uma elite formada por poucos. Não havia a necessidade de criar um elemento X. Mas, okay... ainda é preciso explicar porque os prateados surgiram porque existem muitas interrogações na série. O lugar radioativo, a existência de tecnologia. Tudo dá a entender que havia uma civilização avançada antes da existência desse mundo atual. Talvez a autora esteja ambientando a série no nosso mundo, inserindo algum elemento pós-apocalíptico. Também seria uma surpresa interessante à trama.

Tudo acontece em primeira pessoa. Ou seja, a história é contada por Mare. Poderia ser algo enfadonho, mas a personagem cresce muito ao longo da história. Com a adaptação na corte em Norta, Mare vai pegando as piores características dos nobres. E ela não vai se dando conta disso. Quando ela percebe que se tornou tão manipuladora quanto aqueles que ela odeia, já é tarde demais e suas ações explodem nela. Toda a confiança que ela havia conquistado desaparece da noite para o dia. Aqui é preciso ressaltar o bom trabalho de personagens feito pela autora. Claro que, como em qualquer livro YA ela se utiliza de alguns clichês como o triângulo amoroso (que pode ser um quadrado), as inseguranças adolescentes da personagem que podem incomodar alguns leitores (como a mim). Mas, se você deixar essas características de lado, vai perceber a riqueza de construção de personagens. Você fica sabendo as características de cada um até porque a história precisa se focar nesse tipo de construção. Se eu estou lidando com intrigas na corte, eu preciso deslindar cada um dos personagens para que estes imponham sua forte presença na tomada de ações da protagonista. Quando o clímax é atingido, o que acontece a cada um dos personagens é importante para o leitor.

A autora discute um pouco a questão da manipulação da informação. Tudo é interpretável. Depende de como os outros estão enxergando uma cena. Os prateados conseguem se manter no poder porque passam aos vermelhos uma aura de deuses. São deuses super-poderosos, mesquinhos e dominadores. Se um vermelho cruza o caminho de um deles, a morte é certa. Só que Mare vai se dando conta de que os prateados não são tão "divinos" assim. Eles podem sangrar, eles possuem suas rixas internas e eles sentem medo quando encurralados. Quando ela se dá conta desse grupo de informações, ela passa a ter outra visão da corte. E ela quer passar isso para os vermelhos para que eles sejam capazes de enfrentar os prateados. O clímax do livro também é uma manipulação de informação. Se você não tem todo o contexto da cena, pensaria o mesmo do que o resto da cidade. Ninguém imaginaria as sutilezas daquilo que realmente aconteceu.

A Rainha Vermelha é um bom início de série. Tem seus clichês típicos do gênero e do público-alvo ao qual se dirige, mas consegue aproveitá-los bem e em seu próprio benefício. A escrita é muito ágil e o leitor é capaz de terminar sua leitura em um curto espaço de tempo simplesmente porque as páginas fluem. O enredo também é profundo e repleto de interpretações possíveis.

Resenha - O Hobbit


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Por Thiago Ribeiro

Livro: O Hobbit

Autor: J. R. R. Tolkien

Editora: Wmf Martins Fontes

Páginas: 320

Gênero: Fantasia


Sinopse: Os hobbits são seres muito pequenos, menores do que os anões. São de boa paz, sua única ambição é uma boa terra lavrada e só gostam de lidar com ferramentas manuais. Este livro tem como personagem central o hobbit Bilbo Bolseiro. Ele vive muito tranquilo até que o mago Gandalf e uma companhia de anões o levam numa expedição para resgatar um tesouro guardado por Smaug, um dragão enorme e perigoso.

“Estou procurando alguém para participar de uma aventura que estou organizando, e está muito difícil achar alguém”, Gandalf

        Como fã literário de Tolkien, sou incapaz de falar de uma de suas obras sem aludir à sua criação. O que este escritor britânico fez não foram livros, não foram apenas histórias desconexas para divertir um séquito de leitores. Ele criou um mundo e deu a este mundo milhares de anos de história. Vemos cidades surgirem, sobreviverem por séculos e sumirem, Povos migrando, deuses em luta, continentes e civilizações inteiras nascendo e morrendo. E em meio a tudo isso, sim, histórias, de batalhas e guerras, amores e aventures. É em todo este quadro que se situa o livro O Hobbit: um capítulo de uma vasta História com vários milênios de duração em que um mago “convida” um hobbit a participar de uma aventura.

       Caso vocês nunca tenham sabido o que é um hobbit, pensem em um ser humano baixinho e peludo, peludo, dotado de alguma barba, certa barriga, pés grandes e também peludos que dispensam o uso de sapatos. São diferentes de anões por estes serem mais robustos, barulhentos e energéticos. Um hobbit é um indivíduo mais frágil e calmo, que aprecia tranqüilidade e conforto. Isto explica boa parte do que acontece com o personagem Bilbo, o protagonista do livro. Bilbo vive no Condado, a vila dos hobbits, e sua bela casa foi construída escavada em uma colina. Ele é eminentemente caseiro, preocupando-se apenas com o que comerá nas refeições do dia e em ter uma vida calma e confortável. Daí seu choque e aversão ao ver o mago Gandalf em frente à porta de sua casa convidando-o a uma aventura enquanto ele apenas fumava seu cachimbo numa bela manhã.

       Bilbo acaba sendo visitado por treze anos que, graças a Gandalf, pensaram que ele fosse um experiente ladrão. A aventura em questão consistia em uma perigosa viagem para tentar derrotar um dragão e recuperar não apenas um tesouro, mas principalmente o reino anão que o gigante lagarto devastara, e os anões queriam a ajuda daquele que pensavam ser um sorrateiro gatuno para a empreitada. Bilbo, apesar de relutante, aceita, movido principalmente por um certo e estranho espírito aventureiro herdado por um de seus antepassados (coisa muito estranha para um hobbit do Condado). A viagem é repleta de momentos bons e ruins que mais de uma vez colocam a vida de todos no grupo em um perigo aparentemente sem volta.

          A evolução do personagem de Bilbo é marcante. Sem nunca deixar de ser totalmente temeroso e apreciador de boas refeições, ele passa a misturar sagacidade, sorte e um anel mágico que o permite ficar invisível, que ele teve o acaso fortuito de encontrar em uma caverna, para livrar a si e a seus amigos anões de diversos problemas. É graças a isto que ele se torna o grande herói em dois momentos singulares: quando são raptados por aranhas gigantes e quando os anões se tornam prisioneiros do rei élfico da Floresta das Trevas. A estima de Bilbo dentre os anões, que já vinha tendo certa mudança da aversão inicial para um patamar bom, torna-se altamente valorizada com estes dois episódios.

         A grande viagem do grupo é repleta de altos e baixos. Ao final, superados todos os desafios e travadas todas as batalhas, os personagens retornam mudados. Bilbo, principalmente, nunca mais será o mesmo de antes: ele torna-se um sujeito sonhador, mais corajoso e que valoriza os laços com seus amigos. Ele passa a ser um estranho para os demais hobbits do Condado e alguém muito estimado por indivíduos de fora, de terras distantes, por anões, homens e elfos. Tudo por que ele aceitou participar de uma aventura e, parafraseando parte do título, esteve Lá E De Volta Outra Vez.

Resenha - O medalhão de Ísis


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Por Thiago Ribeiro


Livro: O Medalhão de Ísis (LIVRO 1)

Autora: C. S. Camargo

Editora: Arwen

Páginas: 280

Gênero: Fantasia

Sinopse: O Medalhão de Ísis é o primeiro livro da trilogia sobre o Guerreiro Faris e a princesa Ahlam, que vão para o Egito em busca de peças de um antigo artefato de Ísis. Ambientada na Arábia e Egito do século IV, a trama traz mitos, tradições, deuses, guerras e fatos históricos em meio a traições, aventura e romance.

         
       Uma história que se passa quase dois mil anos atrás. Uma princesa de um reino próspero. Um soldado a serviço de um ambicioso rei. E um gênio com um passado que guarda mistérios e pendências. Este é o quadro em que se desenrola O Medalhão de Ísis, primeiro livro da saga de mesmo nome escrito por C. S. Camargo e que passa na região da Arábia do século IV.

         Ahlam é uma jovem bela e muito inteligente, a princesa mais velha do reino de Nifah. Ela está para completar 18 anos e acaba de ter sido arranjada em um casamento com um príncipe de um reino que vizinho. O casamento selará a paz entre os territórios em guerra, mas não apenas a ideia do arranjo a entristece como seu noivo mostra-se ser alguém bastante rude, que não se importa com seu povo e que considera as mulheres como seres inferiores. Infeliz, tentando se conformar com a situação pelo bem do reino e para agradar a seu pai, o sultão Abbas, Ahlam se encontra sem perspectivas – até que sua cidade é invadida, seu palácio é tomado e ela termina sendo raptada pelo soldado Faris. Questões diversas fazem com que os dois logo se tornem cúmplices, e principalmente um estranho medalhão dado de presente a Ahlam por seu pai os joga em uma perigosa e involuntária jornada ao Egito para tentar impedir que um grande mal retorne. Auxiliados posteriormente por Samir, um gênio galante que acaba sendo preso aos serviços de Faris, o trio gradativamente desenvolve laços de companheirismo, amizade e amor que os ajudam a superar os diversos perigos que surgem.



       A autora recriou com maestria esse mundo da Arábia de 1700 anos atrás. É uma época anterior em séculos a Maomé e ao surgimento do Islã, sendo a região assim uma grande pluralidade de reinos, conflitos, alianças, credos e deuses. O capítulo que descreve a visitação dos três à cidade de Meca, futuro local sagrado do Islã mas que era à época o centre de culto de várias divindades, mostra bem isso. Meu lado de historiador chato foi contemplado e sentiu-se satisfeito com o trabalho desenvolvido por C. S. Camargo, ficando evidente que ela realizou um belo esforço de estudo e pesquisa para poder escrever sua obra. Além disso, sua escrita é leve e envolvente, divertindo e prendendo o leitor tanto por mostrar as relações entre os três personagens quanto pelas aventuras, perigos, deuses e seres com os quais eles se deparam.

        O livro, assim, me lembrou o estilo das obras de Rick Riordan por ser uma história divertida que apresenta divindades e criaturas em atuação, ameaçando ou auxiliando os protagonistas. Mas, apesar de poder falar em uma possível influência, Camargo demonstra possuir um estilo próprio de tecer e apresentar histórias que certamente se desenvolverá ainda mais à medida que sua carreira de escritora agregar anos de experiência. Portanto, Medalhão de Ísis, é uma dica de leitura para os que gostam de aventura, de amor, de mitologia ou, simplesmente, de bons livros.